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THELIRANTES

A MEMÓRIA DA MÚSICA NEGRA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Atualizado: 17 de Set de 2018

Sambas e Dissembas realiza capacitações gratuitas nas áreas da linguagem audiovisual, escrita e fotográfica.


O “Sambas e Dissembas - Fluxos e Geografias da Memória Negra no estado do Rio de Janeiro” surgiu com a missão de registrar e refletir sobre as tradições da música afro-brasileira. Idealizado pela cineasta Aline Lourena, pela jornalista Maitê Freitas e pela historiadora Carolina Maíra Moraes, ao longo de 12 meses, o projeto percorreu quatro cidades fluminenses - Piraí, São João de Meriti, Duque de Caxias e Rio de Janeiro - realizando capacitações nas áreas da linguagem audiovisual, escrita e fotográfica. Além das sambas-conversações, um ciclos de diálogos que promoveu encontros entre sambistas e pesquisadores nas rodas de samba para pensar a influência dessa manifestação cultural na cidade carioca. A iniciativa foi contemplada no edital Territórios Culturais RJ/Favela Criativa, da Secretaria estadual de Cultura do Rio, na categoria Memória e Cidadania.



JONGO DE ARROZAL

VALE DO PIARAÍ - RJ

O projeto teve como ponto de partida a cidade de Piraí, no Vale do Paraíba Fluminense, no Casarão Cultural de Arrozal. O jongo é uma manifestação musical da tradição afrobrasileira amplamente difundido nessa região do estado, sendo em Arrozal, na Fazenda de Cachoeira um dos seus locais de prática e resistência mais expressivo ainda hoje. Entre os dias 21 e 22 de abril de 2017 (sexta e sábado), as atividades contaram com a participação de alunos da rede pública, e com a presença do Sr. Edgar Camillo, coordenador do grupo de Jongo da Cachoeira, que conta com 30 integrantes, entre homens, mulheres e crianças. Durante o encontro Mestre Edgar, que é também o griot, relatou muitas histórias, entre elas como propôs, em 2005, a retomada do grupo fundado pelo seu pai Berolino Camillo, no século XIX. Todas essas memórias narradas por Seu Edgar foram registradas na forma de um documentário com imagens capturadas pelos próprios alunos durante a oficina.



Nessa ação, os participantes produziram um documentário intitulado ‘Do Jongo às Benzedeiras’, entrevistando moradores da cidade para contassem histórias sobre espaços e pessoas importantes da cidade de Piraí.



AFOXÉ ILÊ ALÁ SÃO JOÃO DE MERITI - RJ


Em São João de Meriti, as oficinas aconteceram na casa espiritual Casa de Oxaguian e Oxum e reuniram a comunidade e integrantes do bloco de Afoxé Ilê Alá. O registro se deu entorno das histórias contadas pela Yalorixá Martha de Oxaguian, assistente social e historiadora, que conduz o terreiro de candomblé na Vila Velha, desde 1980. A chefe do terreiro relatou durante a atividade, ter sido a primeira vez que utilizou o próprio aparelho celular para produzir um auto-retrato.

Além disso, a Yakekerê Márcia de Iansã conta em um dos documentários produzidos pelos alunos a respeito da criação do bloco afro-afoxé Ilê Alá, em 2015, e aborda a relação entre o sagrado e o profano dentro do terreiro de candomblé. De maneira mais geral, as histórias registradas em vídeo pelos participantes expressam a relação de afeto com o espaço, e com a tradição do Afoxé, cortejo de rua que faz referência aos Orixás, em geral, sai durante o Carnaval e é uma manifestação afro-brasileira com raízes no povo iorubá.


FOLIA DE REIS - FLOR DO ORIENTE

DUQUE DE CAXIAS - RJ

Já em Duque de Caxias, os encontros acontecerem na Reisado Folia de Reis do Oriente que surgiu em Miracema, Norte Fluminense, em 1872, e há 73 anos veio para Caxias. Todos os anos, ele percorre as ruas e diferentes bairros do dia 24 de dezembro a 6 de janeiro, representando a jornada dos Três Reis Magos, que partem em busca do Menino Jesus. Os participantes do grupo é composto por 32 adultos e 15 crianças registraram partes dessa tradição secular, contando como mantém vivos 147 anos de história, apesar das dificuldades.

Além disso, destaca-se a organização de campanha de financiamento coletivo, com a finalidade de arrecadar recursos para a manutenção das atividades do grupo. Foi gravado também um vídeo-release em que os participantes comunicam ao público as ações que pretendem realizar com os recursos arrecadados, que incluem desde a manutenção e compra de instrumentos musicais, confecção de figurinos e adereços a até mesmo um microônibus para facilitar o locomoção do grupo durante as apresentações.

É importante ressaltar que, a construção de filmes de autorrepresentação e narrativas coletivas resultantes das experiências vindas das oficinas oferecidas pelo projeto, contribuem para uma reflexão crítica sobre a importância de estimular a produção e difusão de discursos próprios como meio de ampliar a visibilidade e a valorização do lugar de protagonismo desses agentes culturais.


A busca por estimular a produção de discursos de valorização das manifestações culturais brasileiras de matriz africana, tais como: do samba carioca, do jongo, da folia de reis, do afoxé, produzidos e protagonizados por esse atores, se constitui como alternativa para descolar as representações distorcidas e estereotipadas. Ao mesmo tempo, que tem um papel fundamental na afirmação do protagonismo negro para a formação da identidade brasileira, na medida que permite a criação de referenciais simbólicos diretamente ligados a preservação da memória e promoção da cidadania da população negra.


Na prática, mais de 100 jovens e adultos participaram das oficinas promovidas pelo projeto, todos receberam capacitação em escrita criativa, produção audiovisual, produção fotográfica e de mapeamentos de ideias e expressões culturais. Os encontros, além de instrumentalizar os agentes culturais, se colocam como uma estratégia de enfrentamento ao silenciamento das vozes provenientes dessas manifestações culturais (jongo, afoxé, folia de reis e rodas de samba) por grupos privilegiados em espaços públicos. Ou seja, a iniciativa é uma alternativa que busca garantir a autorrepresentação narrativa e discursiva para esses grupos, que historicamente têm menos espaço para falar. Isso, porque, o protagonismo nas formas de produção e enunciação das tradições afrobrasileiras, baseado na experiência diretamente vivida por esse atores sociais, se mostra como uma tentativa de romper com o regime de invisibilidade impostos sobre esses segmentos.


FONTE:


AUTOR:

Aline Lourena: é atriz, cineasta, pesquisadora, diretora executiva e fundadora da TheLírios, É mestre em Comunicação e Cultura (PPGCOM-UFRJ), graduada em Audiovisual pela UFRJ, e formada em roteiro cinematográfico pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Responsável pela coletivo #Az_Pretaz - Mulheres Negras e Indígenas da Comunicação e da Tecnologia e apresentadora do programa de rádio, Na Onda das Pretas (Rádio MEC/EBC).

Instagram: @alinelourena

Facebook: @alinelourenaoficial

QUEM SOMOS

 

Fundada em 2009, a A TheLírios é uma empresa que integra a cadeia produtiva do audiovisual carioca com importantes trabalhos realizados para clientes privados e órgãos públicos, além de criar, produzir e realizar filmes e programas para diversas janelas de exibição.

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